Literatura de gênero no Brasil ainda é marginalizada, o que pode dar a impressão de que ela seja fraca, porém, nada mais longe da verdade: há uma fantástica (literalmente) produção de contos de ficção científica, que cada vez conta com mais espaço, graças a escritores como Roberto de Sousa Causo e Nelson de Oliveira, entre tantos, que desde os anos 90 tem publicado contos, zines, antologias e romances nessa área.
E é uma honra ser amigo do cara que está editando a Trasgo, revista independente de contos de ficção científica e fantasia brasileira. Já em sua primeira edição, lançada no mês passado, ela mostrou uma qualidade que a coloca numa das iniciativas mais importantes do gênero do ano. Duvida? Acesse o site www.trasgo.com.br e tire suas próprias conclusões. Ou melhor, antes de ir lá, vamos rolar pra baixo esse post e conhecer um pouco melhor o seu editor, Rodrigo van Kampen.
Com pequenas pausas em nossos dias, eu e Rodrigo conseguimos bater um papo e oferecer a vocês leitores uma entrevista para entender de onde veio, o que é e para onde vai a Revista Trasgo, confira abaixo:
Rafael Noris: Antes de mais nada, queria que você falasse um pouco do seu histórico e o que te levou a se tornar editor de uma revista de ficção científica e fantasia?
Rodrigo van Kampen: Bom, sempre fui leitor voraz, apaixonado por livros e pelo formato mais curto. Contos contém um universo em poucas páginas, é uma narrativa ágil onde o autor não pode perder páginas e páginas criando personagens, cenários, tudo tem que ser apresentado de forma concisa e no final ainda deve funcionar e encantar o leitor. Juntando com a paixão (ou vício) por universos fantásticos, está posto o cenário.
Como escritor, sentia falta de uma revista de contos séria, que fosse além do fanzine, uma revista profissional e respeitada pelo meio, principalmente para que:
Este é um desejo antigo, de editar uma revista. No ano passado tive contato com algumas revistas americanas profissionais, realizadas apenas em ebook, e com a evolução da adesão aos e-readers, percebi que este era o momento certo de colocar as mãos à obra e realizar esse sonho. :)
RN: Nos Estados Unidos os e-readers são bem mais comuns do que por aqui, o que torna bem óbvia a escolha dos americanos. Mas por aqui os leitores em geral ainda estão engatinhando nessa área. Por outro lado, o nicho da publicação é de um público que tem familiaridade com as novas tecnologias. Como tem sido a experiência de publicar em meios digitais e qual foi o feedback que você obteve nessa primeira edição da Trasgo?
RvK: Embora seja algo relativamente novo, os e-readers no Brasil estão explodindo. E se as telas de e-ink ainda não chegaram à maioria do público, os tablets e celulares de alta resolução, que também são relativamente confortáveis para leitura, já têm adesão em massa.
Mas acho que o brasileiro quer ler e dá um jeito. Muita gente também lê os contos pelo próprio site. Mas acho muito importante as publicações se adaptarem aos leitores, um bom tempo na criação da Trasgo foi gasto estudando formas para tornar o texto mais confortável para ler no site e nos ebooks, lendo melhores práticas. Muita coisa considerada "frescura" que teria nos ebooks, como fontes diferentes, etc, foi deixado de lado em prol de uma leitura melhor.
Feedback é um capítulo à parte. Tenho tido uma ótima resposta dos leitores, seja em comentários, tuites, etc. Sempre tem blogueiro fazendo uma boa leitura, comentando conto a conto, adoro isso!
RN: Além da Trasgo, você também escreve em outros lugares, sendo que alguns contos seus se tornaram parte de antologias nacionais ligadas ao gênero fantástico. Conte um pouco sobre essas participações.
RvK: Sim, além de editor também sou escritor. Geralmente publico em meu blog pessoal, mas tenho mandado material para coletâneas. Este ano tive a felicidade de ser escolhido em duas coletâneas até o momento, uma sobre histórias fantásticas sobre futebol, que será lançado pela Editora Draco, e outro de fantasia urbana chamado O Outro Lado da Cidade, organizado de modo independente, mas que conta com o apoio da Llyr Editorial. Ele está sendo financiada no momento pelo Catarse: http://catarse.me/pt/ooutroladodacidade
RN: Para finalizar, gostaria que você deixasse algumas dicas para quem quer se aventurar na prosa fantástica e queira participar de futuras edições da Trasgo.
RvK: Existem muitas dicas para escritores iniciantes, como leia muito, escreva muito e revise várias, várias vezes os seus textos. Mas vou focar na questão da Trasgo, ou de contos fantásticos. O primeiro deles é que um conto precisa ter começo, meio e fim. Há autores que enviam "pedaços" de seus livros, mas a história começa do nada e não encerra. Claro que um cenário de um conto tem muito mais por trás e várias pontas soltas, mas o enredo principal deve estar bem fechado.
Outra questão é o enredo. Você não precisa ser muito criativo e bolar coisas incríveis, basta contar uma boa história. Mas para isso a história precisa andar. Uma série de devaneios do protagonista sobre a vida, o universo e tudo o mais raramente forma um conto, a menos que exista um roteiro aí no meio.
Outra questão é fugir um pouco dos clichês do gênero. Histórias de terror do tipo "monstro mata protagonista e o conto acaba com o monstro vivo por aí" já é batido, precisa ter um belo dum tempero para uma história dessas funcionar. O que ajuda nesse ponto é ler muita coisa contemporânea. Sim, leia os clássicos, mas também leia o que outros autores andam escrevendo e assista filmes, séries e leia quadrinhos, para não ficar preso em histórias que já foram contadas de vários modos diferentes.
Leia, leia leia, escreva, escreva, escreva, revise, revise, revise. E mande para a gente avaliar na Trasgo! ;)
E é uma honra ser amigo do cara que está editando a Trasgo, revista independente de contos de ficção científica e fantasia brasileira. Já em sua primeira edição, lançada no mês passado, ela mostrou uma qualidade que a coloca numa das iniciativas mais importantes do gênero do ano. Duvida? Acesse o site www.trasgo.com.br e tire suas próprias conclusões. Ou melhor, antes de ir lá, vamos rolar pra baixo esse post e conhecer um pouco melhor o seu editor, Rodrigo van Kampen.
Com pequenas pausas em nossos dias, eu e Rodrigo conseguimos bater um papo e oferecer a vocês leitores uma entrevista para entender de onde veio, o que é e para onde vai a Revista Trasgo, confira abaixo:
Rafael Noris: Antes de mais nada, queria que você falasse um pouco do seu histórico e o que te levou a se tornar editor de uma revista de ficção científica e fantasia?
Rodrigo van Kampen: Bom, sempre fui leitor voraz, apaixonado por livros e pelo formato mais curto. Contos contém um universo em poucas páginas, é uma narrativa ágil onde o autor não pode perder páginas e páginas criando personagens, cenários, tudo tem que ser apresentado de forma concisa e no final ainda deve funcionar e encantar o leitor. Juntando com a paixão (ou vício) por universos fantásticos, está posto o cenário.
Como escritor, sentia falta de uma revista de contos séria, que fosse além do fanzine, uma revista profissional e respeitada pelo meio, principalmente para que:
a) Os bons autores novos tivessem um espaço para publicar que não fosse mandar um livro para a longa fila das editores;
b) Os leitores tivessem um espaço com uma boa curadoria para poder ler e apreciar ótimos contos. Há inúmeros espaços de contos na internet, quase todos "free for all", o que é muito bacana, já que há uma troca, uma evolução, mas faltava um espaço para mostrar. "Olha isso, é que há de melhor em tudo aquilo, leia que você vai achar incrível".
Este é um desejo antigo, de editar uma revista. No ano passado tive contato com algumas revistas americanas profissionais, realizadas apenas em ebook, e com a evolução da adesão aos e-readers, percebi que este era o momento certo de colocar as mãos à obra e realizar esse sonho. :)
RN: Nos Estados Unidos os e-readers são bem mais comuns do que por aqui, o que torna bem óbvia a escolha dos americanos. Mas por aqui os leitores em geral ainda estão engatinhando nessa área. Por outro lado, o nicho da publicação é de um público que tem familiaridade com as novas tecnologias. Como tem sido a experiência de publicar em meios digitais e qual foi o feedback que você obteve nessa primeira edição da Trasgo?
RvK: Embora seja algo relativamente novo, os e-readers no Brasil estão explodindo. E se as telas de e-ink ainda não chegaram à maioria do público, os tablets e celulares de alta resolução, que também são relativamente confortáveis para leitura, já têm adesão em massa.
Mas acho que o brasileiro quer ler e dá um jeito. Muita gente também lê os contos pelo próprio site. Mas acho muito importante as publicações se adaptarem aos leitores, um bom tempo na criação da Trasgo foi gasto estudando formas para tornar o texto mais confortável para ler no site e nos ebooks, lendo melhores práticas. Muita coisa considerada "frescura" que teria nos ebooks, como fontes diferentes, etc, foi deixado de lado em prol de uma leitura melhor.
Feedback é um capítulo à parte. Tenho tido uma ótima resposta dos leitores, seja em comentários, tuites, etc. Sempre tem blogueiro fazendo uma boa leitura, comentando conto a conto, adoro isso!
RN: Além da Trasgo, você também escreve em outros lugares, sendo que alguns contos seus se tornaram parte de antologias nacionais ligadas ao gênero fantástico. Conte um pouco sobre essas participações.
RvK: Sim, além de editor também sou escritor. Geralmente publico em meu blog pessoal, mas tenho mandado material para coletâneas. Este ano tive a felicidade de ser escolhido em duas coletâneas até o momento, uma sobre histórias fantásticas sobre futebol, que será lançado pela Editora Draco, e outro de fantasia urbana chamado O Outro Lado da Cidade, organizado de modo independente, mas que conta com o apoio da Llyr Editorial. Ele está sendo financiada no momento pelo Catarse: http://catarse.me/pt/ooutroladodacidade
RN: Para finalizar, gostaria que você deixasse algumas dicas para quem quer se aventurar na prosa fantástica e queira participar de futuras edições da Trasgo.
RvK: Existem muitas dicas para escritores iniciantes, como leia muito, escreva muito e revise várias, várias vezes os seus textos. Mas vou focar na questão da Trasgo, ou de contos fantásticos. O primeiro deles é que um conto precisa ter começo, meio e fim. Há autores que enviam "pedaços" de seus livros, mas a história começa do nada e não encerra. Claro que um cenário de um conto tem muito mais por trás e várias pontas soltas, mas o enredo principal deve estar bem fechado.
Outra questão é o enredo. Você não precisa ser muito criativo e bolar coisas incríveis, basta contar uma boa história. Mas para isso a história precisa andar. Uma série de devaneios do protagonista sobre a vida, o universo e tudo o mais raramente forma um conto, a menos que exista um roteiro aí no meio.
Outra questão é fugir um pouco dos clichês do gênero. Histórias de terror do tipo "monstro mata protagonista e o conto acaba com o monstro vivo por aí" já é batido, precisa ter um belo dum tempero para uma história dessas funcionar. O que ajuda nesse ponto é ler muita coisa contemporânea. Sim, leia os clássicos, mas também leia o que outros autores andam escrevendo e assista filmes, séries e leia quadrinhos, para não ficar preso em histórias que já foram contadas de vários modos diferentes.
Leia, leia leia, escreva, escreva, escreva, revise, revise, revise. E mande para a gente avaliar na Trasgo! ;)


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